Blogue do Maia de Carvalho

POR TRÁS DE CADA GRANDE FORTUNA HÁ UM CRIME. Honoré de Balzac

sexta-feira, outubro 20, 2006

Assim como hoje e há duzentos anos…

É sabido que estou a ler o “MEMORIAL DO CONVENTO” e “A ILUSÃO NEOLIBERAL”. [é bom juntar ficção com realidade] e que gosto de vir aqui ao blogue postar alguma coisa sobre o que vou lendo.

Hoje marcou-me a acção que, na narrativa se vai exercer sobre o padre Gusmão, o Baltasar e a muito querida Blimunda.

«Dizem que o reino anda mal governado, que nele está de menos a justiça, e não reparam que ela está como deve estar, com sua venda nos olhos, sua balança e sua espada, que mais queríamos nós, era o que faltava, sermos os tecelões da faixa, os aferidores dos pesos e os alfagemes do cutelo, constantemente remendando os buracos, restituindo as quebras, amolando os fios, e enfim perguntando ao justiçado se vai contente com a justiça que se lhe faz, ganhado ou perdido o pleito. Dos julgamentos do Santo Ofício não se fala aqui, que esse tem bem abertos os olhos, em vez de balança um ramo de oliveira, e uma espada afiada onde a outra é romba e com bocas. Há quem julgue que o raminho é oferta de paz, quando está muito patente que se trata do primeiro grave to da futura pilha de lenha, ou te corto, ou te queimo, por isso é que, havendo que faltar à lei, mais vale apunhalar a mulher, por suspeita de infidelidade, que não honrar os fiéis defuntos, a questão é ter padrinhos que desculpem o homicídio e mil cruzados para pôr na balança, nem é para outra coisa que a justiça a leva na mão. Castiguem-se lá os negros e os vilões para que não se perca o valor do exemplo, mas honre-se a gente de bem e de bens, não lhe exigindo que pague as dívidas contraídas, que renuncie à vingança, que emende o ódio, e, correndo os pleitos, por não se poderem evitar de todo, venham a rabulice, a trapaça, a apelação, a praxe, os ambages, para que vença tarde quem por justa justiça deveria vencer cedo, para que tarde perca quem deveria perder logo. É que, entretanto, vão-se mungindo as tetas do bom leite que é o dinheiro, requeijão precioso, supremo queijo, manjar de meirinho e solicitador, de advogado e inquiridor, de testemunha e julgador, se falta algum é porque o esqueceu o padre António Vieira e agora não lembra.

Estas são as justiças visíveis. Das invisíveis, o menos que se poderia dizer é que são cegas e desastradas, …»

José Saramago
«Memorial do Convento»

5 Comments:

At 4:52 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Todos conhecem o dito popular que "o mundo é pequeno". De qualquer forma, sempre fico surpreendida. Não é que o senhor e meu tio trocam saudações bloguísticas?
Ah, as coincidências desta vida...
Adriana Afonso

 
At 10:24 da tarde, Blogger Professor said...

Boa, mas não os conheço pessoalmente. E sob anonimato? Conheço algumas Adrianas, mas Afonso? Estou como sempre, mas esta imponderabilidade da blogosfera é maravilhosa!

 
At 10:57 da manhã, Anonymous Anónimo said...

Sob anonimato porque não tenho blog, mas assinado. Adriana Afonso, jornalista (O ECO). Meu tio é Boaventura Eira-Velha, do blog "Memórias". O Senhor comentou no último post dele, onde, por acaso, ele até conta uma passagem que envolve minha mãe (Anastásia). Tenho um orgulho enorme nas histórias que ele conta. Algumas, a minha mãe já me tinha relatado, de vidas numa aldeia escondida, num Portugal profundo. Cavenca é, para mim, um lugar mágico, absolutamente encantador. Ainda hoje...

 
At 11:52 da manhã, Blogger Professor said...

Muito obrigado pelo seu esclarecimento! É bem verdade que é com bastante agrado que leio os "postes" do seu tio. São interessantes tanto no conteúdo quanto no estilo. Por isso gosto.
Cumprimentos que estendo à Paula Sofia. Voltem sempre!

 
At 3:02 da tarde, Blogger totoia said...

Acabei recentemente de reler o Memorial do Convento e em muitos momentos pensei que se tratasse de um romance actual e não histórico.

 

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