Blogue do Maia de Carvalho

POR TRÁS DE CADA GRANDE FORTUNA HÁ UM CRIME. Honoré de Balzac

domingo, dezembro 30, 2007

Restauração de 1640






http://purl.pt/index/geral/PT/index.html

Quando eu era menino e andava na escola, estudava-se História de Portugal, na quarta classe. Chegava-se à quarta dinastia (a História tinha uma sequência cronológica, estudava-se dinastia a dinastia e, dentro destas, rei após rei) a Restauração empolgava-me e, ingenuamente, julgava que aquilo tinha sido ir ao Paço, acabar com o governo da “Vice-Rainha”, Duquesa de Mântua e do traidor, Miguel de Vasconcelos, trocar o Filipe IV pelo D. João IV e já estava: - todos os portugueses felizes e contentes por haver de novo rei português.
Hoje, mais lúcido e mais lido, sei que não foi nada assim. A Guerra da Restauração não fora vinte e oito anos de lutas contra os Castelhanos. Houve muita resistência interna que custou sangue, perseguições, prisões e degredos.
Uma guerra palaciana e diplomática muitas vezes suja, que deixou marca aqui em Pombal, a Igreja e o Convento do Cardal é uma das suas consequências!
Os pombalenses incham de orgulho com o seu marquês e esquecem a família dos seus alcaides, os Vasconcellos e Sousa.
Uma das maiores desilusões que tive, como professor, foi chegar a uma turma do 5º ou 6º ano do Agrupamento de Escolas do Conde Castelo Melhor e não encontrar um único aluno que soubesse, por exemplo, que a Igreja do Cardal resultara de um voto do 3.º Conde de Castelo Melhor, quando andou fugido dos esbirros partidários de D. Pedro II, ele que havia sido o Secretário de Estado mais seguro e competente de D. Afonso VI.
Na sequência das leituras que estou a fazer sobre esta época, encontrei um texto muito curioso, que revela bem o espírito crédulo e até tacanho dos portugueses, já naqueles dias.
Conta-se em poucas palavras e vem descrito na BIBLIOTHECA HISTÓRICA DE PORTUGAL E SEUS DOMINIOS ULTRAMARINOS, publicada em Lisboa, no ano de 1801, a páginas 129.

«Conta-se que D. Rodrigo da Cunha, naquele tempo, dia 1º de Dezembro de 1640, ainda arcebispo de Lisboa, voltando processionalmente da Sé para o Paço, a tomar posse do seu cargo de Governador enquanto o Rei não chegava de Vila Viçosa, passando defronte da Igreja de Santo António, próxima à Sé, para satisfazer o inumerável Povo que lhe pedia a Bênção, se vira despregado o braço direito da Sagrada Imagem de Jesus Cristo, que levava o Padre Nicolau da Maia, seu Cruciferário, em forma de que também abençoava o mesmo Povo, o que foi interpretado por Divina aprovação da Aclamação do Sr. D. João IV…»

Mais curiosa ainda é a noticia, sobre este mesmo assunto, publicada na GAZETA de Novembro de 1641:

«Num lugar da Beira se afirma que houve um homem, que ouvindo dizer numa conversação de amigos que na feliz aclamação d’el Rei, nosso Senhor, fizera o crucifixo da Sé o milagre, que a todos é notório. Disse que podia acaso a imagem do Senhor despregar o braço; e assim como acabou de dizer estas palavras caiu uma parede junto da qual estavam todos os da conversação e só a ele matou.»

Nestes conturbados tempos até a justiça Divina era bárbara!

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4 Comments:

At 1:43 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Isto prova duas coisas:
1 -No tempo da outra senhora
ensinava-se a história aos
meninos;
2 -Hoje não se ensina;
Mas prova ainda terceira coisa: a história que se ensinava era uma versão deturpada da realidade.

 
At 10:29 da manhã, Blogger MCA said...

E o que é a «realidade» em História?...
Boma 2008, caro Professor.

 
At 7:45 da tarde, Blogger Professor said...

Amiga mca, O problema da realidade em história, preocupou-me já muito mais do que me preocupa agora. Com os anos cresci em cinismo e habituei-me a ver que a realidade e a sua "percepção" a verdade, já não são assim tão importantes: A realidade é o que os vencedores entenderem por verdade!
Muito obrigado pela sua visita e iguais votos de 2008 cheio de felicidade. (Parece que o êxito é importante mas a felicidade é mais; só que não sabemos muito bem o que isso seja!) Abraço de muita amizade

 
At 12:27 da manhã, Blogger missixty said...

Aprendi que a história é relativa! Tudo depende de quem a conta! Pedes a 5 pessoas para descreverem uma situação e nenhuma te conta da mesma forma! E depois existe o velho ditado " quem conta um conto, acrescenta um ponto"!
Obrigada pela visita!
beijinhos preguiçoso

 

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